quarta-feira, 14 maio, 2008 12:42
Entenda a crise mundial dos alimentos
Os alimentos estão mais caros e, no mundo
todo, o tema deixa autoridades em alerta e esquenta
debates em torno das possíveis causas
para a escassez de comida.
Para
explicar a crise atual, no entanto, não é possível
eleger um “vilão” específico.
Segundo especialistas, são muitos os fatores
que culminaram no cenário de inflação
agravado desde o começo do ano.
De
acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA)
das Nações Unidas, a falta
de alimentos ameaça como um "tsunami
silencioso", e pode afundar na fome 100 milhões
de pessoas.
De
acordo com a Organização das
Nações Unidas (ONU) para Agricultura
e Alimentação (FAO) são quatro
os principais fatores que influenciam a alta dos
preços dos alimentos: aumento da demanda,
alta do petróleo, especulação
e condições climáticas desfavoráveis.
Há controvérsias sobre a dimensão
da responsabilidade dos biocombustíveis,
cujas matérias-primas (cana, milho e outras)
disputam espaço com culturas destinadas à produção
de comida. Saiba mais sobre cada um desses fatores:
Mais demanda, menos oferta
A
população mundial está comendo
mais. Especialmente nas economias que têm
registrado maior expansão, como a da China,
que tem 1,3 bilhão de habitantes. Com mais
gente comprando, vale a lei da oferta e da procura:
os produtos se valorizam no mercado e ficam mais
caros.
Alta
do petróleo
O
preço do barril de petróleo vendido
em Nova York e em Londres tem, sim, relação
direta com a escalada do valor dos alimentos, já que
a agricultura demanda grandes quantidades do óleo,
seja no maquinário, tratores, uso de fertilizantes
ou transporte, até esse produto chegar ao
consumidor. “O aumento no petróleo
também faz com que o preço final
dos alimentos fique mais caro”, diz.
Para
Francisco Carlos Teixeira, professor da Universidade
Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), o preço
do barril influi diretamente nas commodities agrícolas
em duas pontas: na produção e na
distribuição.
“Hoje, a agricultura é totalmente
industrializada e depende em boa medida do petróleo,
usado como matéria-prima para uma série
de produtos, como defensivos agrícolas e
químicas de preparação da
lavoura. Além disso, também movimenta
os veículos que transportam as safras agrícolas”,
diz Teixeira.
Especulação
Com
a queda do dólar, investidores que
ganhavam dinheiro investindo na moeda norte-americana
migraram para a aplicação em outras
commodities, como os produtos agrícolas.
Muitos
fundos têm usado as bolsas de mercadorias
para especular com a antecipação
da compra de safras futuras em busca de melhor
rentabilidade, o que também contribui para
valorizar e o preço de commodities como
o trigo e o arroz.
Segundo
a FAO, os preços internacionais
do arroz começaram uma escalada desde o
início do ano, depois de subirem 9% em 2006
e 17% em 2007. O preço do produto subiu
12% em fevereiro e mais 17% em março, segundo
o índice All Rice Price, elaborado pela
entidade.
Condições climáticas
O
clima é outro fator que reduziu a quantidade
de alimentos produzida no mundo, segundo relatório
da ONU divulgado na semana passada.
As
condições climáticas desfavoráveis
devastaram culturas na Austrália e reduziram
as colheitas em muitos outros países, em
particular na Europa, segundo a FAO.
Segundo
as previsões da FAO, as reservas
mundiais de cereais caíram para o seu nível
mais baixo em 25 anos com 405 milhões de
toneladas em 2007/08, 5 % (21 milhões de
toneladas) abaixo do nível já reduzido
do ano anterior.
Biocombustíveis?
"Os biocombustíveis são apenas
uma gota no oceano desse cenário de aumentos”,
diz a professora da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Suzana Kahn Ribeiro.
Segundo
ela, o caso do biocombustível é particular
do etanol fabricado a partir do milho dos Estados
Unidos. "O milho é uma cultura alimentar
e, de fato, começou a haver um desvio da
produção de milho com finalidade
para alimento para a produção do
etanol", diz.
Com
a redução da oferta de milho
subiu o preço dos derivados, o que começou
um processo em cadeia; aumentou o preço
da ração dos animais e, conseqüentemente,
das carnes. "No Brasil (onde o etanol é feito
a partir da cana-de-açúcar) a realidade é bem
diferente; tanto que, no nosso histórico
dos últimos 30 anos, aumentamos a produção
não só de etanol, mas também
de alimentos", diz.
(Fonte: Ligia Guimarães / G1)
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