A FEBRE AMARELA RONDA
Em
todos os livros de medicina consta que a última
vez que a febre amarela (FA) apareceu em alguma
cidade brasileira foi em 1942, em Sena Madureira,
no Acre. Há 66 anos, portanto. Assim, talvez
não exista médico no nosso país
que tenha visto algum caso. Doenças como
a varíola, que há menos tempo todo
estudante tinha obrigação de se vacinar
com um risquinho no braço, e cuja marca
não mais saía, já não
se falam há décadas. Mas nesta virada
de ano a imprensa em peso noticiou o aparecimento
de alguns macacos mortos em cidades de Goiás
próximas a Brasília, e mesmo nas
proximidades da Granja do Torto, onde mora o presidente
da república. Mortes possìvelmente
devidas a agrotóxicos. Ainda assim, 130
mil pessoas foram vacinadas em 3 dias contra o
vírus amarílico, causador da febre
amarela, por causa do ocorrido. E quem já foi
vacinado, tem proteção por 10 anos.
O
temor à FA é antigo. Por volta
de 1900, os navios vindos da Europa não
mais paravam no Rio de Janeiro, iam diretos para
a Argentina. A fragata italiana Lombardia estava
atracada no porto do Rio. Desceram 340 marinheiros,
240 tiveram a febre, e 144 morreram inclusive o
comandante. O café não era exportado,
o país passou a ter dificuldades para pagar
sua dívida externa, sobretudo com bancos
ingleses. Campinas perdeu 30% de sua população
em uma epidemia. Em 1903 o cientista Oswaldo Cruz
foi convocado para erradicar a doença. Ela é transmitida
pelo mosquito Aedes Aegypt, o mesmo da dengue,
que passou a ser combatido ferozmente. Oswaldo
Cruz contratou dezenas de agentes, que invadiam
as casas, terrenos baldios, cortiços, a
procura dos focos. Em determinado momento, apesar
da revolta popular contra os métodos firmes
de Oswaldo, o Aedes foi considerado extinto, e
a doença foi só notificada pela última
vez no longínquo Acre.
Devemos
esclarecer que existe a FA urbana, que estamos
falando,
e a silvestre; a doença é a
mesma, a diferença é na transmissão.
A urbana deve-se à picada do A. Aegypt;
a silvestre, comum em florestas e no cerrado, e
cuja vítima principal é o macaco,
por questão de habitat, é transmitida
pelo mosquito Haemagogus, que existe nas matas.
Se o homem sem imunidade for picado pelo Haemagogus
infectado, contrai a doença.
A
FA é uma doença grave. Inicia-se
com sintomas inespecíficos, como febre,
calafrios, cefaléia, dores musculares, comuns
a muitas infecções. Após alguns
dias ataca o fígado e os rins (como a dengue
hemorrágica, a leptospirose, a malária),
levando à icterícia, hemorragias
difusas, diminuição e paralisação
da função renal. No entanto, como
acontece na medicina, às vezes ocorre algo
de difícil explicação: em
85% dos casos a pessoa tem apenas o quadro inicial,
confundindo até mesmo com uma gripe, e sara,passando
a ter imunidade permanente; nos demais 15%,a metade
morre. A partir da década de 80, com o reaparecimento
do Aedes Aegypt, trazendo a dengue, o receio maior é o
retorno da FA urbana, o que seria a decretação
da falência da nossa medicina preventiva
e do próprio Estado brasileiro.
A
febre amarela não tem tratamento específico,
faz-se tratamento de suporte (hidratação,
oxigênio, diálise, transfusões,
etc.). Evitam-se medicamentos derivados do AAS
e antiinflamatórios, que pioram as hemorragias.
O diagnóstico é feito pelos sinais
e sintomas, pelos dados epidemiológicos
e por exames laboratoriais (isolamento do vírus
ou sorologia).
Em
2007, o município do Rio de Janeiro
teve 22 000 casos de dengue, o dobro de 2006. A
forma hemorrágica levou ao óbito
20 pessoas. Se fosse a FA, pelo raciocínio
do que já comentamos, teriam morrido perto
de 2000 pacientes.
A
febre amarela existe nas Américas Central
e do Sul, e na África. Quem viajar para
locais endêmicos deve ser vacinado 10 dias
antes. Os últimos casos confirmados ocorreram
na Amazônia: em 2004 foram 5 pacientes e
3 óbitos e em 2005 foram 3 pacientes e 3 óbitos.
Acreditamos que muitos pacientes não foram
diagnosticados e mesmo naqueles suspeitos não
houve tempo para confirmação, pois
a doença leva apenas cerca de 7 dias do
início do quadro à morte do paciente.
Em 2001 houve pânico na região Centro
Oeste mineira (região de Divinópolis),
com a morte de 17 pessoas por FA. Em 05-01-08 faleceu
um lavrador internado em Goiânia com falência
múltipla de órgãos, e suspeita
de FA. Mesmo assim, as autoridades informaram que
todos os exames estão sendo realizados,
e a conclusão sairá em..... 90 dias!!!
Aguardemos.... Preocupado, o Ministério
da Saúde está providenciando vacinação
para 18 estados, e sugerindo vacinação
para todos que se dirigem ao país.
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