Cardiopatias
em Jovens
Muitas
vezes ouvimos alguém dizer que determinada
pessoa é muito jovem para ter uma doença
no coração. Isto é certo
quando pensamos em doenças que se instalam
em longo prazo, como aquelas que obstruem as
artérias coronárias, causando
quadros de angina do peito e, progressivamente,
infarto do miocárdio. Angina e infarto
são raros antes dos 40 anos, a menos
que a pessoa tenha componente genético
determinante ou fatores de risco importantes
(fumo, hipertensão, stress, diabetes,
colesterol, etc.). Quando um rapaz de 30 e
poucos anos tem um infarto, não podemos
esquecer de pesquisar se é usuário
de cocaína.
As doenças cardíacas congênitas, que a criança
apresenta desde o nascimento, ocupam lugar de destaque na cardiologia. Algumas
são complexas, graves e inviabilizam a vida. As demais podem ser discretas
e evoluir logo para a cura espontânea ou mesmo conviver com a pessoa
por toda a vida. Outras têm de ser operadas com rapidez, algumas podem
esperar. Tudo dependendo das repercussões hemodinâmicas causadas
ao coração e ao organismo em geral.
As mais comuns são as comunicações inter atriais (CIA)
e inter ventriculares (CIV), em que aparece um orifício fazendo os átrios
(ou os ventrículos) se comunicarem. É como em uma casa, alguém
fazer um buraco na parede entre dois quartos. No coração, o
sangue passa pelo orifício, fazendo um barulho que denominamos sopro.
Quanto maior o orifício, mais grave é o caso. Algumas doenças
congênitas fazem o sangue venoso se misturar em maior quantidade ao
arterial e a criança apresenta-se arroxeada, o que chamamos cianose.
A tetralogia de Fallot é a mais conhecida. Temos clientes operados
pelo Professor Zerbini de TF há quase 30 anos, e que estão
bem.
Com o advento do ecocardiograma, passou-se a observar uma alteração
discreta da valva mitral durante a sístole em algumas pessoas, que
foi denominada prolapso da valva mitral (PVM). No inicio este diagnostico
foi superdimensionado, todos tinham PVM, e admitia-se ser causa de algumas
síndromes mais sérias. Hoje não se valoriza tanto.
Por vezes as cardiopatias congênitas se associam a outras doenças,
como na síndrome de DOWN, quando o paciente pode ter além do
déficit mental, doenças cardíacas importantes.
Outro tipo de doença cardíaca que atinge o jovem, a partir
da idade escolar, é a febre reumática (ou reumatismo poliarticular
agudo). O acesso mais fácil ao pediatra e aos antibióticos
tem diminuído esta patologia, que lesa as valvas cardíacas,
principalmente a mitral. Inicia-se com uma simples dor de garganta (que quase
todo menino tem), e atinge as articulações e o coração,
tendo sido responsável por milhares de cirurgias cardíacas
em todo o mundo. Em determinadas circunstâncias, vários irmãos
podem ter a doença, por maior susceptibilidade ao germe e por dormirem
em mesmo ambiente, contraindo em uma mesma época a infecção
respiratória. Deve-se acrescentar que a bactéria localiza-se
na garganta, e atinge a articulação e o coração à distancia.
Deve ficar claro que apenas uma ínfima percentagem das crianças
com infecção de garganta apresentam a Febre Reumática.
Mas quando isto acontece, deve-se administrar a penicilina benzatina (Benzetacil)
por longos anos, pois ela previne novos surtos que a cada re-agudização
lesam cada vez mais a valva cardíaca.
Dr.Mauricio
Valadão Reimão de Melo, médico
cardiologista, do quadro efetivo do ministério
da saude,ex-presidente da sociedade médica
de ubá, vereador, Presidente da
Câmara Municipal. |