EXERCÍCIOS
E EVENTOS CARDIOVASCULARES AGUDOS Nos últimos
trinta anos, premida pelo número crescente
de doentes, a cardiologia foi uma das especialidades
que mais atraíram
investimentos e mais se desenvolveram. No entanto,
casos como os de morte súbita, e principalmente
quando relacionada a exercícios físicos
ou ao esporte, sabidamente importantes para as
pessoas, continuam a desafiar os especialistas.
A revista do DERC (setembro;2007) (Departamento
de Ergometria e Reabilitação Cardiovascular
da Sociedade Brasileira de Cardiologia) publicou
um resumo de um estudo apresentado pela renomada
revista americana Circulation (maio|07), tendo
como objetivo discutir as complicações
cardiovasculares relacionadas com o exercício,
seus substratos patológicos, sua incidência,
e sugerir estratégias para sua redução.
IMPORTÂNCIA DO EXERCÍCIO: A atividade física regular é atualmente
recomendada com ênfase pela comunidade médica, particularmente
devido às evidências científicas, clínicas e epidemiológicas
de que o exercício retarda o desenvolvimento da aterosclerose e reduz
a incidência de eventos coronários. No entanto, a atividade física
vigorosa pode também levar a um aumento agudo e transitório do
risco de infarto do miocárdio (IAM) e de morte súbita (MS), em
indivíduos suscetíveis.
ACHADOS PÓS-MORTEM EM JOVENS: Entre indivíduos jovens (idade
abaixo de 40 anos), as cardiopatias congênitas são as mais freqüentemente
encontradas, incluindo a cardiomiopatia hipertrófica, origem anômala
da artéria coronária, ponte miocárdica, estenose aórtica,
valva aórtica bicúspide, dissecção aórtica
(tipo Marfan), prolapso mitral, cardiopatia arritmogênica do VD, vias
anômalas (QT longo, QT curto, Brugada), e miocardites.
ACHADOS EM ADULTOS: Nos indivíduos mais velhos, a doença arterial
coronária (DAC) é a doença mais freqüente entre aqueles
que morrem durante atividades físicas. O exato mecanismo pelo qual o
exercício vigoroso provoca eventos agudos como ruptura ou erosão
da placa aterosclerótica e oclusão trombótica aguda ainda
não está definido, mas são sugeridos o aumento do estresse
da parede da coronária devido a elevação da freqüência
cardíaca e pressão arterial, espasmo induzido pelo exercício
em segmentos doentes das artérias, além do aumento da torção
de artérias doentes, levando a ruptura de placas e conseqüente
trombose. Naqueles indivíduos com DAC assintomáticos,podem ocorrer
tanto a ruptura da placa,como a indução de taquiarritmias complexas
devido a isquemia desencadeada pelo esforço. Há outras causas,
como o aumento da trombogenicidade (agregação plaquetária
em indivíduos não condicionados que realizam exercícios
intensos agudamente); a redução do fluxo coronário exacerbada
pela redução do retorno venoso, causada pela interrupção
abrupta do exercício, pode ser a explicação para colapsos
relatados com freqüência imediatamente após o término
do exercício; além dessas, as alterações eletrolíticas,
o aumento das catecolaminas e da circulação de lipídeos
também podem elevar o risco de arritmias ventriculares.
EXERCÍCIO AUMENTA O RISCO DE EVENTOS AGUDOS? Na região italiana
de Veneto, especialistas estudaram casos de Morte Súbita entre jovens
(12 a35 anos), por um período de 25 anos; foram 2,3 casos ano| 100.000
atletas, contra 0,9 entre não atletas, apesar de todos os atletas italianos
serem submetidos a uma avaliação pré-participação;
estudos em adultos também sugerem que o exercício agudo aumenta
o risco de eventos cardiovasculares, apesar da redução das coronariopatias(DAC)
com a atividade física regular. O Rhode Island Study revelou que a taxa
de MS foi 7,6 vezes maior em relação às atividades sedentárias.
Já o estudo Onset estimou que o risco de um infarto durante ou após
um exercício vigoroso chega a ser 50 vezes maior em sedentários,
quando comparados com indivíduos que são muito ativos.
RISCOS EM SITUAÇÕES E ATIVIDADES ESPECÍFICAS: Em contraste
com os adultos, a MS e o colapso cardíaco nos atletas jovens ocorrem
principalmente ao entardecer e início da noite e estão associados
com treinos e competições. No entanto, a Morte Súbita
entre jovens não atletas com cardiomiopatia hipertrófica ocorre
mais frequentemente nas primeiras horas após o despertar, semelhante
aos casos de coronariopatias; entre adultos as evidências são
pobres em relação ao horário do dia onde os eventos ocorrem
com maior freqüência; devido ao fato de que o exercício moderado
e regular reconhecidamente reduz a incidência de eventos cardiovasculares,
parece mais importante que a atividade física seja realizada regularmente
em um horário conveniente, do que existir um horário específico
do dia para isso.
ESTRATÉGIAS: Nenhuma estratégia foi, até o momento, adequadamente
estudada para avaliar sua capacidade de reduzir eventos; os médicos
não devem superestimar os riscos do exercício, porque os benefícios
da atividade física regular e de moderada intensidade são substancialmente
maiores que seus riscos; algumas estratégias parecem ser prudentes:
avaliação pré- participação, exclusão
de indivíduos de alto risco de algumas atividades, avaliação
de sintomas prodrômicos, treinamento adequado dos profissionais envolvidos
com exercícios, equipamentos para atendimento de emergências e
recomendação de programas de exercícios moderados.
AVALIAÇÃO PRÉ-PARTICIPAÇÃO: Entre atletas
jovens a American Heart Association recomenda uma avaliação cardiovascular
antes de competições, em intervalos de dois a quatro anos; o
exame deve incluir uma história familiar e pessoal e um exame físico
com o foco em condições associadas a eventos induzidos pelo exercício.
A AHA não recomenda a realização rotineira de qualquer
teste não invasivo, incluindo o ECG, o que é controverso, uma
vez que o Grupo de Estudo em Cardiologia do Esporte da Sociedade Européia
de Cardiologia tem recomendado um ECG para todos os atletas no exame pré-participação
desde 2005. Na Itália, a avaliação pré -participação é obrigatória
desde 1982, incluindo o ECG, tendo diminuído os casos de MS em 89% anualmente,
entre atletas jovens (15 a 35 a.). Entre adultos, a AHA inclui o teste ergométrico
(esteira), como recomendado para indivíduos acima de 45 ou 55 anos (homens
e mulheres, respectivamente) e nos diabéticos, antes de iniciarem exercícios
físicos vigorosos.
A maior limitação do TE nestes casos é que sua positividade
requer uma lesão importante e que limite o fluxo coronariano, enquanto
que a maioria dos eventos agudos ocorre em indivíduos previamente assintomáticos,
devido à ruptura de placas vulneráveis pequenas; consequentemente
um TE pode ser normal apesar da presença
de uma pequena placa coronária sujeita a sofrer ruptura. A avaliação
do perfil de risco aterosclerótico dos pacientes como um todo deve ser
a norma quando se cogita o engajamento em situações de exercício
físico rigoroso.
EXCLUSÃO DE INDIVÍDUOS DE ALTO RISCO
TE é a estratégia recomendada pela AHA antes de exercícios
físicos vigorosos em indivíduos com cardiopatia conhecida, visando
a sua possível exclusão da prática de tais atividades.
AVALIAÇÃO DE SINTOMAS PRODRÔMICOS: Inúmeros relatos
sugerem que em muitos casos, o indivíduo tinha queixas que foram ignoradas
por ele ou pelos médicos; muitas das vítimas relatam os sintomas
apenas para familiares e recebem pouca ou nenhuma atenção médica.
O reconhecimento pelos pacientes desses sintomas e sinais ,bem como uma avaliação
médica cuidadosa de indivíduos ativos com sintomas relacionados
aos esforços, deve ser a norma para prevenção desses eventos.
TREINAMENTO PARA EMÊRGENCIAS
CARDIO VASCULARES
A
AHA recomenda que treinadores (e seus assistentes)
que trabalham
com adolescentes e atletas universitários,
recebam treinamento em ressuscitação
cardiopulmonar; também encoraja os clubes
a disponibilizarem desfibriladores externos automáticos
(DEA) para emergências em suas dependências.
(Este artigo foi condensado pelo Dr. Daniel J.
Daher, Cardiologista especialista em Medicina do
Esporte, médico do Instituto Dante Pazzanese de São
Paulo. O trabalho original foi publicado pela Circulation e elaborado em conjunto
pelo Conselho de Nutrição, Atividade Física e Metabolismo
e o Conselho de Cardiologia Clinica da American Heart Association (AHA), em
colaboração com o American College of Sport Medicine.)
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