HOSPITAIS EM CRISE


O INCOR, Instituto do Coração de São Paulo, é um dos melhores hospitais do Brasil e do mundo. Em dezembro de 2006, sob o peso de uma dívida de 250 milhões de reais, a direção “jogou a toalha”, ameaçando fechar suas portas. Com a interferência dos governos estadual e federal, conseguiu continuar funcionando, mas não como antes e o atual diretor-executivo, o infectologista David Uip, está saindo agora (dez/07), deixando a dívida em 150 milhões de reais.

A Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, em 03/06/07, publicou nota na Tribuna de Minas, relatando que funciona há 153 anos, sendo um dos melhores hospitais de Minas e do país; que os Serviços Cardiológicos de Alta Complexidade (cirurgia cardíaca, angioplastia, implante de marca passo) achavam-se em situação crítica, por não receberem repasse financeiro desde out/06, na ordem de R$ 2. 258. 794, 00, por procedimentos realizados e autorizados pela secretaria municipal de saúde. Os equipamentos e materiais usados já não tinham como ser substituídos e a curtíssimo prazo haveria uma paralisação dos serviços aos pacientes do SUS. Reuniões com o prefeito e secretários nada resolveram.

Em 2005 foram fechados 255 hospitais no país, segundo o IBGE. Em 2006, quase 300. Queixam-se que o SUS paga apenas à metade do que é gasto. O ex-ministro da saúde, Adib Jatene, um dos nossos médicos mais importantes e o atual, José Gomes Temporão, alertam sempre para este fato, para a defasagem das tabelas de pagamentos, mas parece que é intenção do(s) governo(s) manter os hospitais na corda bamba, ou, em “pré-coma”. Acreditamos que atualmente 90% dos hospitais estejam devendo a Bancos.

O curioso é que este aspecto econômico também virou uma verdadeira paranóia em todas as faces da medicina. Se há uma palestra sobre, por ex., acidentes automobilísticos no feriadão, ouve-se “morreram 100 pessoas, tiveram ferimentos graves 1000”, mas aí a pessoa acrescenta “dando um prejuízo de X milhões à nação; por isso os acidentes têm de acabar....”. Ou, um diretor de hospital pode se aproximar de um médico que está com um doente grave e dizer ”você sabe quanto custa cada ampola deste antibiótico? não? é tanto, e você está usando quatro por dia; assim o hospital fecha, o doente não tem onde internar, e você não têm onde trabalhar...”

Há poucas semanas, em um hospital ubaense, o pediatra não compareceu ao plantão noturno. O outro plantonista estava no quarto quando foi chamado para atender uma criança. “Sou cirurgião, não atendo criança há mais de 20 anos”, teria dito. A família chamou a polícia, e quatro policiais foram buscar o médico, ameaçando-o de prisão; o médico desceu, internou o paciente, mandou avisar ao pediatra, reclamou que estava sem receber há cinco meses e servindo de testa de ferro do governo e foi para casa. O funcionário da portaria ligou para o médico do CTI comunicando o ocorrido, e informou-lhe da possibilidade dele ter que atender alguma criança; ”então você pode chamar logo a polícia, porque prefiro ser preso que matar uma criança”, respondeu. É como jogar aquele antigo jogo, o dos 7 erros; quem tem razão, quem não tem, descubra os erros; será que o prefeito, o secretário de saúde, o diretor do hospital, o diretor clínico, tomaram conhecimento do fato, e/ou tomaram alguma providência? Depois disto já tivemos conhecimento de vários casos semelhantes de não atendimento, sem que se procurasse resolver de antemão o problema. A Câmara Municipal convocou o secretário de saúde para prestar esclarecimentos,mas não obteve resposta.

Na verdade, a raiz do problema é bem mais profunda. Em 1977 foi realizado o último grande concurso nacional do INAMPS (Instituto de assistência médica e previdência social), que controlava a parte previdenciária e a assistência médica em todo o país. Há 30 anos, portanto. Os médicos e dentistas da Zona da Mata fizeram a prova em Juiz de Fora. Daqui, entraram 3 médicos e 1 dentista. Todos próximos da aposentadoria, atualmente. O INAMPS foi extinto, veio o SUS e a municipalização da assistência médica; os profissionais, incorporados ao Ministério da Saúde, e cedidos às Prefeituras. A Medicina, por incrível que pareça,é uma profissão ainda não regulamentada, não tem plano de carreira. Um médico que entra hoje, ganha o mesmo que aqueles que fizeram o concurso em 77. Seus colegas de juventude que optaram para o Judiciário, ou pela Receita, ou são Delegados da Polícia Civil ou Federal, se aposentam com salários 5 a 10 vezes maiores. Alguns médicos têm contrato administrativo (Fhemig), podendo ser desligados a qualquer momento.Outros, como os plantonistas de CTI ou da porta do hospital (pronto atendimento), nem isto; não têm férias, 13° salário, se adoecerem não recebem.E o salário, muito aquém da expectativa.

O ministro Temporão queixou-se em recente entrevista, que os ministros da área econômica não usam o SUS, daí suas insensibilidades para os problemas da saúde. Achamos que só há uma saída: baixar um decreto que todo político (e família) só poderá ser atendido nos locais que seus eleitores também o forem...!

Ao fecharmos a coluna, deparamos com duas notícias de jornais: o ministro do Planejamento Paulo Bernardo comentando que a saúde perdeu quase a metade de seu orçamento, 22 bilhões de reais, com a não prorrogação da CPMF; e uma comissão do governo do estado do Rio de Janeiro concluindo que dos 33 hospitais estaduais, apenas 8 tinham condições de funcionar. Em particular, nos entristece saber que o Hospital do IASERJ, na Cruz Vermelha, onde já trabalhamos, e era um hospital modelo, está com o centro cirúrgico e o CTI fechados (quando inaugurado, era o CTI mais moderno do país) e com nove dos seus treze elevadores quebrados.


 

Dr.Mauricio Valadão Reimão de Melo, médico cardiologista, do quadro efetivo do ministério da saude, ex-presidente da sociedade médica de ubá, vereador, Presidente da Câmara Municipal.