Infarto Agudo do Miocárdio (IAM)


Os livros infantis ensinam que o rim tem a função de um filtro, o cérebro, de um computador, o fígado, de um laboratório e o coração,de uma bomba; E é isto mesmo. A função do coração é, digamos assim, mecânica. Ele recebe o sangue e o bombeia para frente. No lado direito, chega o sangue com pouco oxigênio, já usado, e vai para os pulmões. No lado esquerdo, mais possante, vem o sangue oxigenado, arterial, que é impulsionado para todo o organismo, dos pés à cabeça, pela artéria aorta, que vai se ramificando até virar minúsculos capilares. Portanto, as paredes do coração, formadas pelo músculo denominado miocárdio, têm que estar hígidas, saudáveis, para exercer sua função.

No caso de um dano nesta musculatura, o volume minuto (chamado débito cardíaco) lançado na circulação cai, e vai fazer muita falta aos demais órgãos.

O coração, uma cavidade musculosa, recebe e envia vários litros de sangue por minuto para todo o corpo, para oxigenar e alimentar as células. Ele, no entanto, não usa este sangue para alimentar suas paredes diretamente, e sim através de artérias de médio calibre denominadas coronárias. Existem a coronária direita e a coronária esquerda. Elas saem da aorta, levando sangue arterial, e nutrem o miocárdio. A coronária esquerda logo se divide em duas, chamadas descendentes anterior e circunflexa. Portanto, consideramos a existência de três coronárias: a CD, DA e CX. Uma obstrução no interior de uma destas artérias, por placas de cálcio e colesterol, plaquetas, etc. interrompe a passagem de sangue e a área à jusante (à frente), pára de receber o sangue e morre, o que chamamos de infarto (enfarte, infarte) do miocárdio. As artérias coronárias, à medida que entram no coração, vão se ramificando, de modo que a obstrução arterial pode se dar no final da artéria (parte distal) e causar menos dano. Se obstruir na parte proximal, no inicio, uma área maior será lesada, o que pode levar à morte ou séria incapacidade da função cardíaca.

Estas obstruções às vezes vão ocorrendo lentamente, a artéria ficando com uma obstrução de 40%, 50%, 60%, ..., 80%,......até fechar. Assim, uma pessoa com 60% de obstrução pode não sentir nada no repouso, mas quando vai subir uma ladeira, o coração batendo mais, precisando mais de sangue, este fica insuficiente para aquele esforço, e vem uma dor no peito, que denominamos angina. A pessoa pára e a dor cessa. Quando um menor esforço causar a dor, o caso está mais grave. Se a dor vier mesmo sem esforço, há iminência de ocorrer IAM, que ocasiona dor muito forte no meio do peito (uns falam em pressão, outros queimação etc...) , palidez, náuseas, ansiedade, falta ar. Cerca de 50% dos casos de infarto levam à morte sem que o paciente tenha tempo de ser atendido, daí a importância da sua prevenção. Às vezes o infarto não chega a ser grande para dar uma insuficiência de bomba, mas desequilibra o ritmo do coração levando a arritmias graves (taquicardia ventricular e fibrilação ventricular), que levam à parada cardíaca.

Pacientes idosos ou diabéticos podem ter o infarto sem dor, sendo descoberto apenas após um eletrocardiograma de rotina.

Às vezes em pacientes mais jovens (mais ou menos 40 anos) o infarto é mais grave, porque o processo obstrutivo foi muito rápido, não dando tempo das artérias formarem as chamadas circulações colaterais, que permitem um desvio do sangue do local afetado, pela neoformação de pequenos outros ramos arteriais coronários.

No tratamento do infarto, o importante é preservar o músculo. “Tempo é músculo”, ou seja, quanto mais rápido o paciente for atendido, o músculo sofrerá menos. O tratamento antes de doze horas permite o uso da enzima estreptoquinase por via venosa, que pode dissolver o coágulo formado na obstrução ou em serviços de hemodinâmica, pode se usar o cateter (via artéria femural) para a realização da angioplastia no local do entupimento.

Os fatores de risco das doenças coronárias devem ser combatidos: hipertensão, colesterol, fumo, obesidade, stress, inatividade física, diabetes. O componente hereditário é importante: se alguém teve um parente próximo do sexo masculino que teve enfarte, morte súbita, ou cirurgia cardíaca (“ponte de safena”) antes dos 55 anos ou do sexo feminino antes dos 65 anos, deve ter cuidado redobrado, nunca fumar, e fazer exames periódicos, como de laboratório, ecg, teste ergométrico, cintilografia, etc. Em último caso, se houver duvidas, fazer o cateterismo cardíaco (cinecoronariografia). Hoje já existe a angiotomografia, que é não invasiva, e tem grande sensibilidade para identificar obstruções coronarianas.

Morte súbita é um quadro dramático, e ocorre em pessoas sabidamente doentes ou não, quando o óbito ocorre até uma hora após o inicio dos sintomas. Alguns chegam a considerar o prazo de seis horas. Setenta por cento dos casos são originados pela doença coronária. Mesmo sem chegar a ter o infarto, pode haver o aparecimento de arritmias graves que levam à parada cardíaca. Nos primeiros minutos as células cerebrais suportam a ausência de oxigênio, e o uso de um desfibrilador (choque) pode reverter à arritmia, geralmente fibrilação ventricular, e ressuscitar o paciente.
Como noventa e cinco por cento destas paradas ocorrem fora do hospital, em grandes centros já existem desfibriladores e pessoal treinado em estádios, aeroportos, etc.

No Brasil é ministrado o curso intensivo do ACLS (advanced cardiac life survival) (suporte avançado de vida em cardiologia), que ensina médicos a procederem corretamente nestas situações.

Dr.Mauricio Valadão Reimão de Melo, médico cardiologista, do quadro efetivo do ministério da saude, ex-presidente da sociedade médica de ubá, vereador, Presidente da Câmara Municipal.