Outubro, 1967
A
revista Veja, lançada em 1968, publicou
dois anos após, encartes com o título “Anos
60- A Década que Mudou Tudo”. E tome
de Beatles, Kennedy, De Gaulle, Guerra Fria, Pílula,
Transplante Cardíaco, Corrida Espacial,
Guevara, Woodstock. No Brasil, Bossa Nova, Pelé,
Santos, Botafogo, Cruzeiro, Cinema Novo, Garrincha,
Ditadura Militar, Festivais de Música.
E aqui nos reportamos ao III Festival de Música Popular, da TV Record
de São Paulo, em outubro de 1967, tido como o maior de todos. Como já disse
alguém: todos se encontraram ali, ao mesmo tempo; compositores de 20
e poucos anos, que nestes últimos 40 anos dominaram a música
popular brasileira, estavam lá: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto
Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Tom Zé, Johnny Alf, José Martinho
Ferreira (ele mesmo, o da Vila), Renato Teixeira, Dori Caymmi,Nelson Mota,
Capinam. E Os Mutantes, MPB4, Roberto Carlos, Nara, Gal, Erasmo, Elis Regina.
Ponteio (de Edu e Capinam), Domingo no Parque (de Gil), Roda Viva (de Chico)
e Alegria, Alegria (de Caetano) foram às vencedoras, na finalíssima
do dia 21. Elis, a melhor cantora. Aplausos, vaias, torcidas organizadas, uma
catarse coletiva.
O inesperado: Sérgio Ricardo, de uma geração anterior,
compositor reverenciado, parceiro de Gláuber Rocha no Cinema Novo, não
ouvindo os acordes de Beto Bom de Bola, sua música dedicada ao ídolo
Garrincha, quebrou o violão e o jogou com fúria sobre a platéia.
Vaias triplicadas e ameaças até de linchamento.
Neste mesmo mês e ano, no Rio de Janeiro, o Festival da Canção
premiava Margarida (Gutemberg Guarabira), Travessia (Milton Nascimento e Fernando
Brant) e Carolina (Chico Buarque).
No ano anterior, quando o Festival da Record explodiu para o país, Disparada
(de Geraldo Vandré e Téo Barros ,com impressionante interpretação
de Jair Rodrigues) e A Banda (de Chico Buarque), empataram em primeiro lugar.
Duas músicas completamente diferentes entre si e completamente diferente
do que se fazia antes.
Devemos lembrar que na década de 50 a música brasileira primava
por sambas – canções e boleros, que cantavam a dor de cotovelo.
Sem falar dos sambas e marchinhas de carnaval, que ocupavam os ouvintes das
emissoras de rádio por uns bons 5 – 6 meses. Existiam as músicas
de carnaval e as de meio de ano.
Por volta de 1958 surgiu a Bossa Nova, alicerçada em Tom Jobim, Vinicius
de Morais e na batida de violão de João Gilberto. A inspiração
era mais leve, do tipo sol e mar, sorriso e a flor, com a adesão de
universitários e jovens classe média. Paralelamente, o mercado
era invadido pela nova música internacional, o Rock and Roll.
Estes ritmos afugentaram os velhos compositores e cantores, que sumiram do
mapa. Nelson Gonçalves, e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião (ritmo
que trouxe do Nordeste), entre outros, foram cantar nos cabarés e circos
do interior (mas foram reabilitados mais tarde). As marchas carnavalescas viraram
marchas - rancho e posteriormente predominaram as músicas das Escolas
de Samba, de início boas, depois péssimas.
A Bossa Nova, como não era apenas Tom, Vinicius e João Gilberto,
foi carecendo de maior embasamento, sensibilidade social e inconformismo, coerente
com os novos tempos, de protestos, ditaduras, busca de direitos civis, descobertas.
Aí entraram em campo os sucessores da Bossa Nova, que é o time
já citado no início. Somaram-se a isto, os Festivais de Músicas,
que foram de 1965 ao início dos anos setenta. Tinha o da Excelsior,
Record, Globo, Universitário, e até de Juiz de Fora, que revelou
a clássica Tristeza Pé no Chão, do compositor local Mamão,
defendida por Clara Nunes. No Universitário, em que venceu “Amigo é pra
essas coisas”, nos primeiros lugares figuraram Aldir Blanc, Gonzaguinha,
César
Costa Filho e Ivan Lins. Outros compositores também participaram do
Festival Universitário, como Ronaldo Monteiro de Souza, Belchior, Paulinho
Tapajós,
Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. Este último ganhou, em
parceria com o consagrado Baden Powell, a Bienal do Samba em 1968 com Lapinha,
interpretada
por Elis Regina. E, carinhosamente, até Ubá , nos anos 70, teve
animados Festivais, organizados por jovens, creio que do Interact Club (Rotary).
Dori Caimy, compositor e arranjador, diz hoje que a música brasileira
teve três grandes gerações: a de seu pai, Dorival, Ary
Barroso, Noel Rosa e Pixinguinha; a de Vinícius, Tom e Dolores Duran;
e aquela dos Festivais dos anos 60.
Atualmente,
40 anos após, o vazio e a
crise rondam a MPB. Os talentos não mais
existem, ou são desestimulados no nascedouro.
Há ilhas de excelência, claro, mas
são exceções. Curioso é que
na ditadura militar sombria, todos sobreviveram
e cresceram, enquanto na ditadura do mercado, ninguém
dá seu recado.
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