| TRAUMA
É
a maior causa de mortes de adultos jovens (menos
de 40 anos) no país. Na população
geral, fica abaixo apenas das doenças
cardiovasculares e das neoplasias. Devem-se principalmente
a homicídios, acidentes automobilísticos
e quedas. Trauma ou traumatismo é todo
ferimento interno ou externo. Politraumatizado é aquele
que tem múltiplos traumas. Em
1980, o Colégio Americano de Cirurgiões,
entidade que reúne a classe nos Estados
Unidos, iniciou um curso chamado ATLS (Advanced
Trauma Life Survival ou Suporte Avançado
de Vida no Trauma), que ensinava aos médicos
uma maneira prática e precisa atender
pacientes traumatizados. O curso se espalhou
pelo mundo inteiro, e é atualizado de
4/4 anos, com a colaboração de
centenas de especialistas. A
morte decorrente do trauma ocorre em um
dos três momentos. O primeiro pico de morte
ocorre nos primeiros segundos a minutos do trauma.
Neste caso, podem ocorrer lacerações
do cérebro, do tronco cerebral, da medula
espinhal alta, do coração, da aorta,
e de outros grandes vasos sanguíneos.
Muito poucos destes pacientes podem ser salvos
devido a gravidade das lesões; somente
a prevenção é capaz de reduzir,
de modo significativo, este pico de mortalidade.
O segundo pico ocorre dentro de minutos a várias
horas depois do trauma. As mortes ocorrem usualmente
devido a hematomas subdural e epidural (dentro
do crânio), hemopneumotórax (sangue
e ar entre a pleura e pulmões), ruptura
do baço, lacerações no fígado,
fraturas pélvicas e/ou outras lesões
traumáticas múltiplas, acompanhadas
de perda sanguínea significativa. É neste
pico que o curso do ATLS ensina como agir. O
terceiro pico ocorre vários dias a semanas
após o traumatismo inicial, e é devido
principalmente à sepse (infecção
generalizada) e à insuficiência
de múltiplos órgãos e
sistemas. Como
no ACLS (Suporte em Cardiologia), o ATLS
tem métodos mnemônicos para o aluno
guardar o que tem de fazer, sem perder tempo;
assim as letras A, B, C, D, E são iniciais
em inglês do que deve- se fazer em ordem
de importância. Chegou o paciente, lembrou-se
das letras, pela ordem. Em poucos segundos o
médico analisa a situação
do paciente. A-AirWay - Vias aéreas: proteção
da via aérea contra obstrução
(vômitos, corpos estranhos, etc.) e controle
da coluna cervical B-Breathing – Respiração:
avaliação da expansibilidade pulmonar,
que pode estar prejudicada por hemotórax,
pneumotórax, fraturas múltiplas
de costelas, etc. C-Circulation – Circulação
sanguínea: avaliar perdas sanguíneas
por hemorragias, lesões cardíacas,
etc. D-Desability - Déficit neurológico:
avaliar lesões do sistema nervoso (intracranianas
prioritariamente) E-Enviroiment-Ambiente e Exposição:
expor o paciente, tirando-lhe a roupa, mas
cobrindo-o para evitar hipotermia. Os
traumas podem ser de origem abdominal,
torácico,
raquimedular (TRM), cranio-encefálico
(TCE), músculo-esquelético, e causados
por queimadura e frio. Há o trauma pediátrico
e na gestante. É importante conhecer e
avaliar as hemorragias e os estados de choque
e coma, além da melhor forma de socorrer
e transportar um acidentado sem causar-lhe maiores
danos. Os Bombeiros (193) e o SAMU (Serviço
de Atendimento Móvel de Urgência)
(192) ou mesmo a Polícia Militar (190)
geralmente fazem o transporte do local do acidente. O
volume de sangue de uma pessoa é de
cerca de 7% de seu peso; assim, um homem de 70
Kg tem perto de 5 litros. O estado de choque
corresponde a um colapso circulatório
no paciente. Comumente é avaliado pela
queda da pressão arterial. Se em condições
normais a PA= 120x80 mm Hg, a partir de 90x60
o paciente já está pelo menos em
pré- choque. No trauma, a principal causa
de choque é a hemorragia. A perda sanguínea
até 15% (750 ml) (classe I) não
costuma dar sinais ou sintomas, e em pessoas
sadias é reposta em 24hs pelo organismo.
Em hemorragias classe IV, perde-se mais de 40%
do sangue (mais de 2000 ml). Há queda
acentuada da PA, da diurese, do nível
de consciência, e a freqüência
cardíaca ultrapassa 140 bpm. Aqui, o caso é grave. O
coma é definido como a situação
em que o doente não obedece comandos,não
articula palavras e não abre os olhos.
A partir destes 3 itens criou-se a Escala de
Glasgow para avaliar o nível do coma,
originado geralmente nos TCEs. Dá-se pontos
de 1 a 5 para cada item. Assim, um paciente bem
tem 15.Um muito mal tem 3.Quando a EG está em
8 ou menos, o paciente está em coma pròpriamente
dito. Vamos dar exemplo no item “resposta
verbal”: o médico faz uma pergunta,
o paciente responde corretamente (5 ptos.), responde
confusamente (4 ptos.), emite palavras inapropriadas
(3 ptos), emite sons incompreensíveis
(2 ptos), sem resposta (1 pto). A EG é importante
porque o doente pode ser avaliado frequentemente
e observada sua evolução. E também
na transferência para outro Hospital, deve-se
informar corretamente à nova equipe. A
coluna vertebral é composta por ossos
superpostos denominados vértebras. Ela
liga-se com a base do crânio (acima) e
com o osso do quadril (abaixo). As vértebras
são denominadas de acordo com sua localização.
As do pescoço são as cervicais
(em n° de 7); as torácicas são
12, as lombares, 5; o osso sacro tem 5 vértebras
fundidas e o cóccix tem 4, também
fundidas entre si. As vértebras têm
uma abertura que forma um canal, por onde passa
a medula espinhal, estrutura pertencente ao sistema
nervoso central, de cerca de 45-50 cm,que sai
do encéfalo e desce pela coluna, e de
onde saem os nervos para todo o organismo.Assim,
a fratura de uma vértebra em acidente
ou queda pode lesar a medula parcial ou totalmente,
no local daquela vértebra, e comprometer
a inervação que sai naquele local.
Já vimos que o primeiro pico de morte
em um trauma pode ocorrer em lesões medulares
altas, correspondentes a fraturas nas primeiras
vértebras cervicais (C1 e C2, principalmente
). Ocorre por depressão dos centros respiratórios.
C1, a primeira vértebra, é conhecida
por Atlas; C2, por Axis. C2 também é fraturada
nos casos de enforcamento. Descendo, as lesões
podem levar a tetraplegia, paraplegia, etc. Daí o
uso do colar cervical nos politraumatizados,
até estar comprovada a ausência
de fratura cervical; o uso da prancha também é importante,
para fixar o restante do corpo. Uma fratura em
C6 ou abaixo, p.ex., não afeta os braços,
porque os feixes nervosos para lá já saíram,
mas pode ocasionar a paraplegia (paralisia
nas pernas). O
jogador Valtencir, nascido em Juiz de Fora,
era lateral-esquerdo talvez do melhor time
que o Botafogo já teve. Em 1968 o clube cedeu
8 titulares no jogo Brasil 4x1 Argentina. E Valtencir
fez um gol. Em 1978, aos 32 anos, jogando pelo
Colorado (hoje Paraná), ao subir para
cabecear uma bola, junto com um jogador do Maringá,
caiu morto no chão. Não se sabe
se houve um choque, ou uma torção
do pescoço, causando fratura vertebral
e lesão medular alta (acima de C4, certamente). Já temos comentado da crise que acomete
os hospitais. O setor de urgência- emergência é possìvelmente
o mais afetado. Não conhecemos um médico
que pensa em continuar ali a médio prazo:
excesso de pacientes, geralmente para consultas
comuns, baixo salário, condições
de trabalho precárias, confusões,
bêbados, brigas de família ou vizinhos,
dificuldade para encontrar um especialista principalmente
em finais de semanas (quando os acidentes são
mais freqüentes), descaso das chefias e
autoridades. Às vezes atender um infartado
ou traumatizado leve é menos complicado
que atender uma confusão familiar, incrementada
pelo álcool. Portanto, ter um grupo treinado
no ATLS ou no ACLS não é fácil,
mas temos que lembrar que qualquer um pode necessitar
de um atendimento deste nível, a qualquer
momento.
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