O Sobe e Desce na Medicina


Quando se tem algum tempo de janela, e um pouco de senso de observação, fazendo uma analise rápida, vê-se às vezes com surpresa como as mudanças acontecem com o passar dos anos. Não apenas no âmbito da família, das amizades, da natureza, mas também nas profissões e no nosso trabalho. Até há 20 anos, os congressos médicos no interior eram mais freqüentes, concorridos e tradicionais.

Por exemplo, o congresso da cidade de Carangola era dos mais famosos, com médicos de Minas e estados vizinhos em presença maciça. Hoje, já não mais existe. Mas o “Top” destes congressos era certamente a Mesa-Redonda que reunia os cirurgiões-gerais, relatando cada um suas experiências em cirurgias, principalmente de estômago e vesícula. Deve-se lembrar que quando passávamos pelo corredor da enfermaria cirúrgica, quase todos os casos eram de operados de estômago. Hoje, com o advento de novas drogas e novos exames, é raro este tipo de cirurgia. A cirurgia tradicional de vesícula, após o vídeo laparoscopia é cada vez mais rara. E isto resulta na dificuldade de se ensinar ao estudante de medicina a técnica tradicional, o que também está influindo na diminuição dos especialistas em cirurgia geral.

A cirurgia cardíaca também está passando por mudanças radicais. Com a alteração do estilo de vida nas últimas décadas, aumentaram muito as doenças causadas pelo entupimento das artérias coronarianas (angina e infarto do miocárdio). No final da década de 60, o argentino René Favaloro, na Cleveland Clinic, uma das mais avançadas do mundo em cirurgia do coração, “bolou” a cirurgia de ponte de safena, em que retirava uma veia da perna (safena), onde não fazia muita falta, e unia uma ponta na artéria aorta e outra na artéria coronária, após o local obstruído, fazendo com que o sangue passasse com facilidade. Está cirurgia virou febre por 40 anos, até que descobriram que com o mesmo cateter (tubo fino, de material plástico), com que se fazia o cateterismo cardíaco, localizando a obstrução, também se poderia “desentupir” a coronária, e ainda melhorou com a invenção do Stent, espécie de mola que ajuda a manter a artéria aberta.

Nos últimos anos as cirurgias cardíacas diminuíram muito, substituídas pelos métodos hemodinâmicos, que utilizam cateteres nos procedimentos. Em compensação, a cinecoronariografia, que causa receio em muitos pacientes, pode estar diminuindo brevemente, substituída pela angiotomografia, que localiza perfeitamente as placas de obstrução coronária, sem invadir o paciente, mas sendo ainda um método muito caro para a população geral.

Além dos cirurgiões gerais e cardíacos, prevê-se a queda do numero de pediatras. Explica-se ,porque a maioria dos especialistas usa aparelhos (geralmente importados), o que lhes confere um maior faturamento. A consulta em si é pouco valorizada pelos planos de saúde, e os pediatras geralmente não têm outro recurso diagnostico próprio.

O Sistema Único de Saúde (SUS) também colabora para desestimular o profissional, com sua baixa remuneração. Em Juiz de Fora as cirurgias de otorrino laringologia foram interrompidas por vários meses. No interior está difícil ser operado em certas especialidades, e em alguns casos o auxiliar do cirurgião é a instrumentadora, porque o médico recebe pouco para operar e muito menos ainda para ajudar a cirurgia. E em alguns estados os médicos estão em greve devido à volta de uma prática já abolida há 30 anos: o SUS pagar os honorários médicos ao hospital e não diretamente ao médico.

Dr.Mauricio Valadão Reimão de Melo, médico cardiologista, do quadro efetivo do ministério da saude,ex-presidente da sociedade médica de ubá, vereador, Presidente da Câmara Municipal.