Meu pai é gay, e daí?

(*) Kátia Horpaczky

..........................................................Foto: O Dia

 

Podemos começar com a compreensão de que o homem é um ser construído histórico e, socialmente, é importante salientar que a atual crise masculina é resultado de várias transformações históricas. Um aspecto muito importante para o fortalecimento da identidade masculina está a posição heterossexual, em que, segundo Badinter, o padrão de “normalidade” estabelece que "a identidade masculina está associada ao fato de possuir, tomar, penetrar, dominar e se afirmar, se necessário pela força" (Badinter, 1993). A homossexualidade, entendida enquanto dominação do homem pelo próprio homem, se constitui em um modelo fora do padrão.

Nesse cenário de conflito masculino e conquistas femininas, muitas instituições estão sendo transformadas, principalmente a família. Ao desviar do modelo tradicional ela assume um modelo chamado moderno em que "a família hierárquica com papéis bem definidos quanto a gênero e geração" é substituída.

A família gay é um modelo que atualmente ganha maior visibilidade. O espaço aberto pelas novas formas de constituição familiar, as várias opções de produção independente, bem como a alternativa de adoção por parte de pessoas solteiras possibilita que homens e mulheres homossexuais assumam a maternidade e a paternidade conforme seus ideais.

Ao assumir uma maneira de ser e de viver diferente da que realmente deseja, esse homem passa a viver esse desejo na clandestinidade. Ele irá satisfazer suas fantasias e desejos sexuais carregados por um complexo de culpa e traição que jamais deve ser revelado a sociedade machista. Essa revelação acarretaria na segregação e os filhos teriam de enfrentar a realidade de que "papai é gay".

Viver fora deste padrão exigido pela sociedade é uma decisão muito difícil. É uma opção que vai exigir muita determinação e coragem pois o que não é visto como “padrão”, sofre preconceito.

Assumir a homossexualidade nesse universo machista e conservador é percorrer um caminho de muitas pedras e barreiras. Obstáculos que só serão superados a partir de muitas lutas, posicionamentos e reivindicações pela busca de uma cidadania plena em que a orientação sexual não seja motivo de segregação dentro do processo da dinâmica familiar e social.

Conheça a opinião de um pai homossexual e sua filha biológica. Nesse caso, não houve conflitos. Os nomes foram omitidos para preservar a identidade dos envolvidos.

Pai:

1) Quando você casou já estava clara sua orientação sexual? Por que casou? Comente um pouco sobre isso.

Não tinha a menor idéia. Sempre fui absolutamente heterossexual, sem nenhum interesse por homens. Acho que aconteceu em um momento de solidão. Não acredito muito em "rótulos”, acho que amor e sexo acontecem baseados na química, cheiro e toque, a que chamamos de tesão. Sei lá, tentei entender, quando aconteceu, mas desisti ao verificar que sou feliz como eu sou....

2) Em algum momento teve receio de que seu (s) filho (s) não aceitassem sua condição homossexual?

Interessante é que esta idéia nunca me cruzou a cabeça; sempre tivemos uma relação aberta, pelo menos é o que penso, e achei que eles me aceitavam pelo o que eu era para eles e não pela minha eventual opção sexual....

3) Como é sua relação hoje com seu (s) filho (s)? O que mudou? E com sua ex-esposa?

Do meu ponto de vista, a relação é franca, carinhosa, amigável e, acima de tudo, aberta, sem segredos. Minha ex-esposa, aparentemente, não ficou perturbada. Foi interessante o comentário dela sobre isso. Ela disse: "prefiro que seja com um homem do que com outra mulher"....

4) O que você gostaria de dizer para pais homossexuais que ainda não se "assumiram" e ainda não contaram para os filhos?

Claro que existem graus de situações baseados nas idades dos filhos e na relação com as mães. Eu tive a sorte de ter filhos já crescidos e uma relação saudável com a mãe deles, mas criem coragem. Se os filhos respeitam e amam os pais, seguramente, saberão entender o que acontece. Ninguém consegue ser feliz numa vida dupla e "camuflada".

5) O que você diria para filhos de pais gays?

Amem e respeitem seu pais da mesma maneira que são amados e respeitados por eles. A vida é feita de equilíbrio e reciprocidade.

Filha:

1) Quando e como o seu pai contou que era gay?

Eu e meus irmãos já havíamos desconfiado, porém nunca comentamos nada. Meu pai morava em Bali e resolveu voltar para o Brasil. Ele e o namorado resolveram morar juntos e para formalizar a união fizeram um almoço para a família (pais, filhos, ex-mulher), isso foi em 2001.

2) Sua relação com ele mudou, se mudou, em que mudou?

Mudou e muito!!! Para melhor com certeza. Ficamos mais amigos e com mais liberdade de conversar sobre qualquer assunto, inclusive sobre o relacionamento dele.

3) O que você sente com relação a esse assunto?

Para mim é absolutamente normal. Meus pais são separados há 30 anos. Eu tinha três meses quando se separaram. Cresci sem a presença dele. Se eles tivessem se separado por causa disso, talvez eu pudesse ter algum receio, mas como tudo isso aconteceu muito tempo depois, realmente não me afetou em nada.

4) O que você diria para os “pais gays”?

Que cada um escolhe a sua maneira de ser feliz...compartilhe da sua felicidade com as pessoas que você ama..

5) O que você diria para filhos de pais gays?

Não importa a opção sexual de seu pai; ele vai sempre continuar sendo seu pai e te amando e querendo sempre o melhor para você. A opção sexual não interfere em nada!!!

(*) Kátia Horpaczky
Psicóloga clinica
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